Entrevista: Ana Hikari fala sobre representação oriental em “Malhação”

A atriz Ana Hikari, que foi descoberta pela produção de elenco da Rede Globo no curso de Artes Cênicas da USP – Universidade de São Paulo, está feliz da vida com a oportunidade de poder dar voz aos artistas brasileiros com ascendência oriental em “Malhação – Viva a Diferença” (de Cao Hamburger). 

— Tenho recebido um ótimo feedback do público como um todo, eles já apoiam a Tina de uma maneira incrível. Dentre essas mensagens, muitas são de descendentes de orientais. Sinto que eles se sentem representados por ver uma personagem como a Tina na TV. E, mais do que isso, eles acham também um espaço para questionar a rigidez e o tradicionalismo excessivo de alguns pais.

Apesar de “Malhação – Viva a Diferença” ser seu primeiro trabalho dramatúrgico na televisão, a atriz compartilha que exerce seu ofício há bastante tempo:

— Estou no teatro desde os 12 anos e, por isso, já pude participar de muitas montagens de clássicos, como Tchekhov e Oswald de Andrade. Fiz “Essa Propriedade Está Condenada” (de Tennesse Williams) com o Grupo Porta Emperrada e direção do Juliano Barone. Também cheguei a fazer performances nos viradões culturais de São Paulo. Atualmente, faço parte de duas companhias: Caravana Suspiro e Núcleo Sem Querer de Tentativas Teatrais.

Como será que está sendo a experiência de protagonizar a novelinha teen ao lado de Daphne Bozaski, Gabriela Medvedovski, Heslaine Vieira e Manoela Aliperti? 

— Incrível. Temos uma conexão muito grande e a consciência de que precisamos uma da outra. Esse tipo de colaboração é muito especial.  

Embora Tina seja conectada com o universo do funk e do rap, ela começa a trama como violoncelista, devido à pressão dos seus pais, Mitsuko (Lina Agifu) e Noboru (Carlos Takeshi), que seguem à risca as tradições sociais e os valores moralistas cultuados por várias gerações passadas. Ana Hikari, assim como sua personagem, declara que também se arrisca a tocar alguns intrumentos, porém, por vontade própria:

— Sempre fui muito ligada à música, já tinha me arriscado com violão e ukulele algumas vezes, mas a questão de me envolver com um instrumento de fato veio com a Tina e seu violoncelo.

A relação de Tina com seus familiares é cheia de preconceitos, principalmente após a chegada de Anderson (Juan Paiva), que é negro. Felizmente, a convivência da atriz com sua própria família é bem diferente, embora não esteja livre de situações vexatórias.

— Felizmente, eu convivo muito bem com a minha família. Temos um excelente equilíbrio entre tradição, raízes e contemporaneidade. Mas, com certeza, já passamos por situações desagradáveis e preconceituosas. Pra começar, somos uma mistura. Minha família é 50% de japoneses e 50% de negros/índios. Então, não sou japonesa ou sequer oriental. Sou brasileira. Há um discurso de que o Brasil é muito miscigenado e diversificado, que isso é lindo, mas, na prática, as pessoas são muito preconceituosas e discriminatórias. Já cansei de ouvir “japa” e “pastel de flango”. Nada disso é engraçado ou divertido. Você se sente estrangeiro no seu próprio país. Essa sensação de não pertencimento não é legal. Vejo que a Tina será um ótimo veículo para dar voz aos brasileiros de ascendência oriental que, assim como eu, estão cada vez mais mobilizados para questionar e lutar contra os preconceitos.