Entrevista: Aisha Jambo fala sobre carreira, racismo e mulher cusita em ”Os Dez Mandamentos”

Em seu 17° trabalho na profissão, a atriz Aisha Jambo, que atualmente está com trinta anos, vive um momento especial na sua carreira: ela ainda colhe os frutos do convite que recebeu para integrar o elenco da primeira temporada da novela bíblica Os Dez Mandamentos, exibida pela Rede Record no ano passado. Ela bateu um papo exclusivo com o site Noticiasdetv.com sobre o que vem por aí com a sua personagem na segunda temporada da produção, da qual também vai participar, além de falar sobre algumas curiosidades da sua carreira e ainda alguns temas polêmicos, como o racismo.

Você nasceu em uma família de músicos e também é formada em dança. Como surgiu o seu interesse pela interpretação e como foi ser criada no meio da arte?
“Por crescer em um ambiente musical – minha mãe, Vanja, toca harpa, e meu pai, Jolt, é compositor e instrumentista – desde pequena passo os dias ouvindo meus pais tocando ou escutando diversos ritmos da nossa discoteca/arquivo musical. O interesse pelo teatro e pela dança veio ainda na infância, muito naturalmente nas brincadeiras de criança. Comecei a fazer aulas de circo com a Vanda Jaques da Intrépida Trupe, música e dança, o que me ajudou na interpretação: o circo é bastante teatral. Em casa, sempre tivemos muito carinho e apoio. Acompanhávamos as rodas de artistas e viagens em turnê com os pais. Toda essa bagagem me deu bastante segurança quando percebi que era a carreira artística mesmo que queria seguir.”

Nos seus 17 trabalhos já realizados, você teve a oportunidade de interpretar personagens diferentes uma das outras? Tem algum perfil de personagem que você ainda não fez e gostaria de interpretar no futuro?
Sim. Quando penso nas personagens que já interpretei, fico muito feliz e agradecida porque foram todas muito diferentes umas das outras. Claro que têm coisas em comum, mas cada uma com uma história bem oposta à outra. Por exemplo, a Ritinha, de Cabocla, tinha uma leveza ingênua e romântica. Já a Naomí, de Malhação, também era leve, mas com um toque de empáfia: era marrenta. Eram de períodos diferentes, um de época e outro contemporâneo. A Natália, personagem da série Natália, que fiz para a TV Brasil, era doce e um pouco insegura. Ah, tem tantas personagens que desejo fazer, rs. Mas, já estou começando a imaginar uma para o teatro e cinema é outra paixão.”

Algumas das suas personagens, como a Natália, da série Natália, levantou a bandeira do racismo, da ética e dos padrões de beleza. Como você lida com esses temas?
“O seriado aborda temas delicados com sutileza. De certa forma, o preconceito racial, em nenhum momento, era o foco, ele estava nas entrelinhas, já que contava a história e o protagonismo de uma menina negra nascida no subúrbio do Rio. O bacana é que não ia para o estereótipo, apesar de ascender socialmente através da moda. Procuro lidar de maneira autêntica, consciente e realista. Sim, existe racismo, hipocrisia e um padrão de beleza orientado por um modelo que não condiz com nossa realidade histórica e étnica miscigenada. Me enche de alegria fazer parte desse grupo que está na mídia – com seus cabelos soltos e bem volumosos – incentivando esse movimento cada vez mais cotidiano de blacks e tranças pelas ruas. É lindo. Mas, ainda temos que discutir esses assuntos. Precisamos lutar pela legitimidade e desmistificação de uma cultura historicamente marginalizada, como a negra e a indígena. Mas, como filha dessa mistura interracial, não posso negar minha origem multicor. Vejo que precisamos encontrar um ponto de equilíbrio no discurso. A descoberta da sexualidade é outro tópico que aparece na série. Não é fácil falar sobre esse tema, mas procuro pensar sempre no respeito à liberdade individual e também na função do diálogo, principalmente na adolescência.”

Os Dez Mandamentos foi a sua primeira novela bíblica. Você possui ligação com alguma religião específica? A novela provocou mudanças em você? Como foi a sua preparação para viver a dama de companhia Radina?
“É a minha primeira novela bíblica. Estou muito satisfeita porque, antes de tudo, é uma história com uma pesquisa – dos costumes do período – muito bem feita, além dos autores trabalharem o lúdico o tempo todo, misturando o material que se tem da bíblia e todos os registros históricos daquela época (século XIII antes de Cristo). Sou muito ligada em energia, em Deus e nas figuras que falam de amor. Não sigo uma religião. Gosto de conhecer diversas culturas e procuro perceber suas co-relações. Cheguei no meio da novela, que já estava em um ritmo acelerado. Conversei muito com o diretor, Alexandre Avancini, para entender como era a Radina, e com os preparadores de elenco Fernanda Guimarães, Leandro Baumgratz e Suzana Abranches. Fizemos alguns exercícios já baseados no texto. Pesquisei música africana e imagens da região e do povo.”

Muitos telespectadores possuem dúvidas em relação à origem de Radina, que é do sul da Núbia. Que tipo de orientação você recebeu ou pesquisou sobre ela ser chamada de mulher cusita na bíblia?
“Temos a tradução Cusita e Cuxita. É um povo de pele mais escura de uma região da África identificada como Etiópia e Sudão. Na bíblia, fala que descende de Cam. Os Núbios tiveram importante relação comercial com o Egito, alcançando, inclusive, a soberania por algum tempo, com alguns faraós negros da região do atual Sudão.”

Na segunda temporada, a Radina vai se aproximar de Moisés, por quem ela é apaixonada. Como vai acontecer isso e como a Zípora vai reagir com tal situação?
“Em novela, recebemos uma sinopse e tentamos nos basear por ali, mas sempre acontecem muitas mudanças, é uma obra longa. Mas, a Radina guardará um pouco esse sentimento, pois Moisés (Guilherme Winter) está casado. Zípora (Giselle Itié) talvez perceba, mas não sei como reagirá. De qualquer forma, é uma mulher muito forte e de fé, o que a leva a admirar tanto o libertador dos hebreus.”

O elenco completo da segunda temporada da novela bíblica Os Dez Mandamentos, que ainda pode ser reforçado ao longo das gravações, é formado pelos atores Aisha Jambo, Anna Rita Cerqueira, Bernardo Velasco, Bia Braga, Bianka Fernandes, Binho Beltrão, Brenda Sabryna, Brendha Haddad, Bruno Ahmed, Bruno Padilha, Camila Santanioni, Carolina Chalita, Daniel Alvim, Daniel Siwek, Denise del Vecchio, Dudu Azevedo, Erich Pelitz, Felipe Cardoso, Fernando Sampaio, Floriano Peixoto, Fran Maya, Francisca Queiroz, Giselle Itié, Guilherme Winter, Gustavo Henzel, Heitor Martinez, Henrique Gottardo, Igor Cosso, Jeniffer Setti, Jéssika Alves, João Pedro Franco, Jorge Pontual, Juliana Didone, Júlio Oliveira, Kátia Morais, Larissa Maciel, Leonardo Braga, Leonardo Vieira, Luiz Eduardo Oliveira, Marcela Barrozo, Marco Antônio Gimenez, Nanda Ziegler, Nicole Orsini, Paulo Figueiredo, Paulo Reis, Paulo Vilela, Pérola Faria, Petrônio Gontijo, Pietro Buonafinna, Rayana Carvalho, Rayanne Morais, Renato Livera, Sandro Rocha, Sidney Sampaio, Talita Castro, Talita Younan, Tammy di Calafiori, Thaís Muller e Vitor Hugo.

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